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domingo, 9 de abril de 2017

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire

LXXXIV - O irremediável

I

Uma Ideia, uma Forma, um Ser
Saído do azul e descendo
Num Estige plúmbeo e barrento
Onde o olho do Céu não vai ver;

Um Anjo, incauto viajor
Que tentou o amor do disforme,
Dentro de pesadelo enorme
A se agitar qual nadador,

Em fúnebre angústia lutando!
Contra remoinho gigantesco
Que vai em um canto dantesco
E nas trevas piruetando;

Um pobre infeliz se seduz
Em seus palpares hesitantes,
Pra fugir dos seres rampantes,
Procurando a chave e a luz;

Um danado a descer sem lâmpada,
À beira de abismo de odor
Que trai profundeza e vapor,
De eternas escadas sem rampa,

Onde velejam monstros viscosos
Cuja fosfórea grande vista
Faz noite, a mais negra que exista,
E a eles só tornam vistosos.

Um navio no polo preso,
Como armadilha de cristal,
Buscando em que estreito fatal
Naquela jaula foi surpreso;

- Lemas claros, quadro perfeito
De um destino já prefixado,
Que dá a pensar que o Diabo
Tudo que faz, faz bem feito!

II

Aconchego limpo e sombrio
Coração que espelho se faz!
Poço em Verdade, atroz e fugaz,
Onde treme astro luzidio,

Fanal irônico, infernal,
Das graças satânicas fogo
Única glória e desafogo,
- A consciência no Mal.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LXXXIII - O Heautontimoroumenos¹

A. J. G. F.

Sem cólera em ti baterei
Como o açougueiro, sem sanha,
Como Moisés na montanha,
E de tua pupila farei,

Para molhar meu Saara,
Brotar as águas do sofrer.
Meu desejo com esperança
No amargo pranto nadará

Como um navio no mar vaga,
E no peito que embriagarão
Teus caros ais reboarão
Como um tambor que bate a carga.

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à vivaz ironia
Que me sacode e que me morde?

Está na minha voz gritante!
É o sangue negro gira!
Sou o espelho deformante
Em que a megera se mira.

Eu sou a chaga e a espada!
Sou o rosto e o bofete atroz!
Sou o membro e a roda dentada,
E sou a vítima e o algoz!

Do meu coração sou vampiro,
- Um desses grandes largados
Ao riso eterno condenados
E que não tem mais sorriso!

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹Título tomado de uma comédia de Terêncio: O carrasco de si mesmo, provavelmente por intermédio de Joseph de Maistre (Terceira palestra sobre As noites de São Petersburgo). (N. do E.)

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire

LXXXII - Horror simpático

Desse céu bizarro e sem cor,
Em tormentos qual teu destino,
Que ideias na alma ao dispor
Descem? Responde, libertino.

- Insaciavelmente a querer
O que é escuro e sem destino,
Como Ovídio não vou gemer
Quando expulso do éden latino.

Céus rasgados como ribeiros
Em vós meu orgulho se expande;
De luto vossas nuvens grandes

São mortes de sonhos inteiros,
E o luar réplica se faz
Do Inferno que a minha alma apraz.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire

LXXXI - Alquimia da dor

Um te aclama com seu ardor,
O outro em ti põe luto, Natura!
Este diz a um: Sepultura!
Ao outro diz: Vida e esplendor!

Hermes¹ ignoto que me assistes
E que sempre a mim intimidas,
Tu te tornas igual a Midas²,
O mais triste dos alquimistas;

Por ti transformo ouro em ferro
E o paraíso num inferno;
No grande sudário do espaço

Eu descubro um cadáver terno,
E em meio às nuvens do céu baço
Grandes sarcófagos eu faço.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹Hermes é um dos deuses olímpicos, cujos atributos estão associados às artes, à comunicação e à alquimia, entre outros. (N. do E.)
²Midas é o rei mitológico que recebeu de Dionísio (Baco, para os romanos) o dom de transformar em ouro tudo o que tocava, como recompensa por sua hospitalidade. O dom, porém, tornou-se-lhe uma maldição, e ele acabou pedindo ao deus que lho retirasse. (N. do E.)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O gosto do nada - Spleen e Ideal - Charles Baudelaire

LXXX - O gosto do nada

Meu espírito, outrora ardoso em combate,
A Esperança, espora a incitar-te o ardor,
Não quer mais te picar! Deita-te sem pudor,
Velho corcel que em cada obstáculo bate.

Resigna-te, minha alma; dorme do sono bruto.

Espírito vencido, aguado! Pra ti nada
Errante, nem o amor tem gosto, nem a luta;
Adeus, cantos do cobre e suspiros da flauta!
Prazeres, não tenteis a alma triste e amuada!

A primavera amável perdeu sem odor!

E o Tempo a me engolir segundo por segundo,
Como uma imensa neve ao corpo enrijecido;
Contemplo do alto o globo em seu feitio rotundo,
E não busco em cabana um lugar protegido.

Avalanche, vais ter na queda me engolido?

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

domingo, 2 de abril de 2017

Obsessão - Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LXXIX - Obsessão

Grandes matas, dais medo como as catedrais;
Como o órgão rugis; e em nossos corações,
Quartos de eterno luto onde vibram os ais,
De vosso De profundis ecos são refrões.

Odeio-te oceano! As bordas e os tumultos,
Minha mente os encontra em si; o riso alvar
Do homem vencido, cheio de dor e de insultos,
Eu os ouço no riso enorme desse mar.

Como me agradarias, noite! sem estrelas
Cuja língua me fala idioma conhecido!
Pois eu busco o vazio, e o negro e o despido!

Porém as próprias trevas são para mim telas
Onde vivem, brotando aos olhos por milhares
Seres idos de olhares tão familiares.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

LXXVIII - Spleen

*O nome do poema é "Spleen" então, para diferenciar dos demais, apenas o nome do poema ficará como título e o número do poema.
*Há 4 poemas de nome "Spleen" na seção "Spleen e Ideal", então o diferencial será o número do poema como venho também o enumerando aqui no blog.

LXXVIII - Spleen

Quando pesado e baixo o céu está tapando
Essa alma a gemer, presa de tanta agrura,
E que do horizonte ao círculo abraçando
Dia negro nos dá como uma noite escura;

Quando a terra se torna uma masmorra úmida,
Onde a Esperança, assim como um grande morcego,
Vai batendo nos muros com sua asa túmida,
Contra o teto a chocar a cabeça, ia cego;

Quando a chuva, espalhando inundações tamanhas,
Imita as fortes barras de vastas prisões,
E um povo emudecido de infames aranhas
As redes vêm armar em nossos corações,

Sinos subitamente saltam a soar
E lançam para o céu um urro lancinante,
Como errantes espíritos sem pátria ou lar
Que se põem a gemer continuamente.

- E longos funerais, sem músicas ou tambores,
Desfilam lentamente em minha alma; a Esperança,
Vencida, chora, e a Angústia, atroz em seus horrores,
Sobre minha alma humilde o negro pálido lança.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.