LVII - A uma Madona
Ex-voto¹ ao gosto espanhol
Ó Madona, ó senhora, um altar vou erguer
Subterrâneo no fundo da minha desgraça,
E vou cavar num canto mais negro em meu ser,
Longe do anseio laico e do olhar de chalaça
Capela, azul e ouro toda marchetada,
Onde tu te erguerás, Estátua deslumbrada;
Com meus Versos polidos, de puro metal,
Sabiamente cravado em rimas de cristal,
Farei pra tua cabeça um enorme Diadema
E pelo meu ciúme, ó Madona suprema,
Mandarei te fazer um Manto, de maneira
Bárbara, dura e espessa, à prova de suspeita,
Que, como uma guarita, encerrar-te-á os encantos;
Não bordado de Pérolas, mas dos meus Prantos!
Teu Vestido será meu Desejo, a tremer,
Ondulante, o Desejo a subir e a descer,
Nas pontas se projeta, nos vales repousa,
E reveste de um beijo o corpo branco e rosa.
Far-te-ei do respeito os mais belos Calçados
De cetim pra teus pés divinos humilhados,
Que, os aprisionando num suave abraço,
Como um molde fiel guardarão o teu traço.
Se não puder, malgrado a arte dedicada,
Talhar para Escabelo uma Lua prateada,
Eu porei a Serpente a morder-me as entranhas
Sob os teus pés a fim que pises suas manhas,
Rainha vencedora e fecunda em reparos,
O monstro todo inchado de ódio e de escarros.
Verás os meus Pensares, Círios alinhados,
Ó Rainha das Virgens, no altar enfeitado,
De brilhos estrelando o teto azul pintado,
Olhar-te sempre com olhar afogueado;
E como tudo em mim te quer muito e te admira,
Tudo é Benjoim, e Incenso, o Olíbano, e Mirra,
E sempre rumo a ti, crista branca e alterosa,
Em Vapor subirá, minha alma tempestuosa.
Enfim, pra completar teu papel de Maria,
E pra mostrar que amor com barbárie se alia,
Volúpia negra! dos Pecados capitais,
Com remorsos algoz, farei sete Punhais
Bem afiados e, malabar insensível,
Tornando o mais profundo amor meta atingível,
Plantá-los-ei no teu Coração vacilante,
Coração soluçante, Coração jorrante.
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
¹Ex-voto: peça de cera ou outro material, quadro, inscrição, etc., que os fiéis põem na igreja, a fim de agradecer uma graça recebida. (N. do E.)
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sábado, 11 de março de 2017
Canto de outono - Spleen e Ideal - Charles Baudelaire
LVI - Canto de outono
I
Logo mergulharemos nas trevas geladas;
Adeus, vivo clarão dos tão curtos verões!
Percebo cair já, em fúnebres pancadas,
A lenha barulhenta em pátios e porões.
Todo o inverno entrará no meu ser: o odiar,
Raiva, tremor, horror, labor duro e forçado,
E, assim como o sol no inferno seu polar,
Meu coração será bloco rubro e gelado!
Parece-me, embalado em assalto de sono,
Que se prega, apressado, algures, um caixão.
Pra quem? - Eis o outono; era ontem verão!
O ruído misterioso cai como abandono.
II
Amo a luz esverdeada desse vosso olhar,
Doce beleza, mas hoje tudo é engano,
E nada, vosso amor, nem a alcova ou o lar
Vale o sol resplendente por sobre o oceano.
E, entretanto, amei-me, terno coração!
Sede mãe, para um ingrato até, ou delinquente;
Irmã ou amante, sede a doce transição
De um glorioso outono ou de um sol poente.
Curta tarefa! A tumba ansiosa está ao dispor!
Ah! Deixai-me, no colo a fronte reclinada,
Haurir, saudoso, o estio branco e abrasador,
Do final da estação a luz suave e dourada!
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
I
Logo mergulharemos nas trevas geladas;
Adeus, vivo clarão dos tão curtos verões!
Percebo cair já, em fúnebres pancadas,
A lenha barulhenta em pátios e porões.
Todo o inverno entrará no meu ser: o odiar,
Raiva, tremor, horror, labor duro e forçado,
E, assim como o sol no inferno seu polar,
Meu coração será bloco rubro e gelado!
Parece-me, embalado em assalto de sono,
Que se prega, apressado, algures, um caixão.
Pra quem? - Eis o outono; era ontem verão!
O ruído misterioso cai como abandono.
II
Amo a luz esverdeada desse vosso olhar,
Doce beleza, mas hoje tudo é engano,
E nada, vosso amor, nem a alcova ou o lar
Vale o sol resplendente por sobre o oceano.
E, entretanto, amei-me, terno coração!
Sede mãe, para um ingrato até, ou delinquente;
Irmã ou amante, sede a doce transição
De um glorioso outono ou de um sol poente.
Curta tarefa! A tumba ansiosa está ao dispor!
Ah! Deixai-me, no colo a fronte reclinada,
Haurir, saudoso, o estio branco e abrasador,
Do final da estação a luz suave e dourada!
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.
LV - Conversa
Vós sois um belo céu de outono, claro e rosa!
Mas a tristeza em mim sobe assim como o mar,
E deixa, ao refluir, na boca vagarosa
Essa lembrança ardente do limo a amargar.
- Tua mão desliza em vão no meu seio pasmado,
O que ela busca, amiga, é um lugar destruído
Da mulher pela garra e pelo dente afiado.
Deixa meu coração, por feras foi comido.
Meu coração é um paço. em desordem largado;
Nele há quem se embriaga, mata, se escabela!
- Nada em teu colo nu um odor delicado!...
Ó Beleza, assim queres, tu que almas flagelas,
Com teus olhos de fogo, a brilhar como festas,
Calcina o que restou, poupado pelas bestas!
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
Vós sois um belo céu de outono, claro e rosa!
Mas a tristeza em mim sobe assim como o mar,
E deixa, ao refluir, na boca vagarosa
Essa lembrança ardente do limo a amargar.
- Tua mão desliza em vão no meu seio pasmado,
O que ela busca, amiga, é um lugar destruído
Da mulher pela garra e pelo dente afiado.
Deixa meu coração, por feras foi comido.
Meu coração é um paço. em desordem largado;
Nele há quem se embriaga, mata, se escabela!
- Nada em teu colo nu um odor delicado!...
Ó Beleza, assim queres, tu que almas flagelas,
Com teus olhos de fogo, a brilhar como festas,
Calcina o que restou, poupado pelas bestas!
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
O irreparável - Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.
LIV - O irreparável
Podemos sufocar velho e longo Remorso,
Que vive, se agita e se farta
E se nutre de nós como o verme do morto
Como do carvalho a lagarta?
Podemos sufocar o implacável Remorso?
Em qual filtro, em qual vinho ou em qual infusão,
Afogar o velho inimigo,
Como uma cortesã, destruidor e glutão,
Paciente como uma formiga?
Em qual filtro, em qual vinho ou em qual infusão?
Diz, bela feiticeira, diz, se for sabido,
A essa alma de angústia cheia
E igual ao moribundo a que pisa o ferido,
Que o cavalo pisoteia,
Diz, cara feiticeira, diz, se for sabido,
A esse agonizante a que o lobo fareja
E a quem o urubu espreita,
A esse soldado roto! Se já não deseja
Ter cruz e tumba já feita;
O pobre agonizante que o lobo fareja!
Pode-se iluminar céu negro por acaso?
Podem rasgar-se escuridões
Mais densas do que a pez, sem manhã e sem ocaso,
Sem astros, raios ou trovões?
Pode-se iluminar céu negro por acaso?
A Esperança que brilha nas lajes do Albergue
Foi soprada, morta afinal!
Sem lua e sem clarões, achar onde se albergue
Mártires de via fatal!
O Diabo apagou tudo nas lajes do Albergue!
Feiticeira adorável, gostas dos danados?
Diz, conheces o irremissível?
Conheces o Remorso, em venenos traçado,
De quem somos alvo possível?
Feiticeira adorável, gostas dos danados?
O irreparável rói com suas presas malditas
Nossa alma, triste construção,
E por vezes a atacar, às térmitas igual,
Pela nossa base elas vão.
O irreparável rói com suas presas maldita!
- Vi por vezes ao fundo do teatro banal,
Que inflamava a orquestra sonora,
Uma fada acender em um céu infernal
Uma miraculosa aurora;
- Vi por vezes ao fundo do teatro banal
Um ser, que somente era clarão, ouro e gaze,
Pisar o enorme Satanás;
Mas o meu coração, que êxtases não tem quase,
É um teatro mesmo contumaz
Na espera, sempre em vão, do Ser de asas de gaze!
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
Podemos sufocar velho e longo Remorso,
Que vive, se agita e se farta
E se nutre de nós como o verme do morto
Como do carvalho a lagarta?
Podemos sufocar o implacável Remorso?
Em qual filtro, em qual vinho ou em qual infusão,
Afogar o velho inimigo,
Como uma cortesã, destruidor e glutão,
Paciente como uma formiga?
Em qual filtro, em qual vinho ou em qual infusão?
Diz, bela feiticeira, diz, se for sabido,
A essa alma de angústia cheia
E igual ao moribundo a que pisa o ferido,
Que o cavalo pisoteia,
Diz, cara feiticeira, diz, se for sabido,
A esse agonizante a que o lobo fareja
E a quem o urubu espreita,
A esse soldado roto! Se já não deseja
Ter cruz e tumba já feita;
O pobre agonizante que o lobo fareja!
Pode-se iluminar céu negro por acaso?
Podem rasgar-se escuridões
Mais densas do que a pez, sem manhã e sem ocaso,
Sem astros, raios ou trovões?
Pode-se iluminar céu negro por acaso?
A Esperança que brilha nas lajes do Albergue
Foi soprada, morta afinal!
Sem lua e sem clarões, achar onde se albergue
Mártires de via fatal!
O Diabo apagou tudo nas lajes do Albergue!
Feiticeira adorável, gostas dos danados?
Diz, conheces o irremissível?
Conheces o Remorso, em venenos traçado,
De quem somos alvo possível?
Feiticeira adorável, gostas dos danados?
O irreparável rói com suas presas malditas
Nossa alma, triste construção,
E por vezes a atacar, às térmitas igual,
Pela nossa base elas vão.
O irreparável rói com suas presas maldita!
- Vi por vezes ao fundo do teatro banal,
Que inflamava a orquestra sonora,
Uma fada acender em um céu infernal
Uma miraculosa aurora;
- Vi por vezes ao fundo do teatro banal
Um ser, que somente era clarão, ouro e gaze,
Pisar o enorme Satanás;
Mas o meu coração, que êxtases não tem quase,
É um teatro mesmo contumaz
Na espera, sempre em vão, do Ser de asas de gaze!
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.
LIII - Convite à viagem
Minha filha e irmã,
Vê, coisa louçã,
Juntos levarmos a vida!
Amar com lazer,
Amar e morrer
Na terra a ti parecida!
Esses sóis molhados
Desses céus toldados
Têm para minha alma encantos
Tão pertubadores
Dos olhos traidores.
Brilhando através dos prantos.
Lá, tudo é ordem, beldade,
Luxo e voluptuosidade.
Uns móveis polidos
Por anos seguidos,
Decorariam o quarto;
As mais raras flores
Mesclam seus odores
Do âmbar ao perfume farto,
Os tetos suntuosos,
Espelhos grandiosos,
O esplendor oriental,
Tudo ali diria
À alma arredia
Sua doce língua natal.
Lá, tudo é ordem, beldade,
Luxo e voluptuosidade.
Vê nos canais rasos
Dormir esses vasos
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
O teu desejar
Que eles vêm do fim do mundo.
-Esses sóis poentes
Vestem as vertentes,
Os canais, toda a cidade,
De ouro e de jacinto;
O mundo dormindo
Está em quente claridade.
Lá, tudo é ordem, beldade,
Luxo e voluptuosidade.
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
Minha filha e irmã,
Vê, coisa louçã,
Juntos levarmos a vida!
Amar com lazer,
Amar e morrer
Na terra a ti parecida!
Esses sóis molhados
Desses céus toldados
Têm para minha alma encantos
Tão pertubadores
Dos olhos traidores.
Brilhando através dos prantos.
Lá, tudo é ordem, beldade,
Luxo e voluptuosidade.
Uns móveis polidos
Por anos seguidos,
Decorariam o quarto;
As mais raras flores
Mesclam seus odores
Do âmbar ao perfume farto,
Os tetos suntuosos,
Espelhos grandiosos,
O esplendor oriental,
Tudo ali diria
À alma arredia
Sua doce língua natal.
Lá, tudo é ordem, beldade,
Luxo e voluptuosidade.
Vê nos canais rasos
Dormir esses vasos
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
O teu desejar
Que eles vêm do fim do mundo.
-Esses sóis poentes
Vestem as vertentes,
Os canais, toda a cidade,
De ouro e de jacinto;
O mundo dormindo
Está em quente claridade.
Lá, tudo é ordem, beldade,
Luxo e voluptuosidade.
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Sujeira sob o papel
O sangue jorrou sobre meu rosto
Quando você olhou-me
O sangue manipulado e seco
Tu sabes a que é
Sua ignorância e fingimento nunca ofenderão a minha ingenuidade
Assim como nunca tocará minha face novamente
O lixo pronto a ser servido por mim
O meu sorriso se desfez.
Mais uma vez minha mente gira sobre isso
E mais uma vez o desprezo
Tão profundo
Imerge e irradia para depois secar e permanecer.
Assim como a água, permanece imutável, só muda de estado, mas continua lá,
sempre lá.
Sob qual luz você está? Pois estou na escuridão
A escuridão da qual deveria ser desejada
Não luzes que cegam.
Os holofotes mostram apenas a você
Não queira me contaminar com uma fresta de luz
Desejo-lhe não a luz, mas o sangue que permanece em mim.
Se um dia você o merecer e não o negar.
Quando você olhou-me
O sangue manipulado e seco
Tu sabes a que é
Sua ignorância e fingimento nunca ofenderão a minha ingenuidade
Assim como nunca tocará minha face novamente
O lixo pronto a ser servido por mim
O meu sorriso se desfez.
Mais uma vez minha mente gira sobre isso
E mais uma vez o desprezo
Tão profundo
Imerge e irradia para depois secar e permanecer.
Assim como a água, permanece imutável, só muda de estado, mas continua lá,
sempre lá.
Sob qual luz você está? Pois estou na escuridão
A escuridão da qual deveria ser desejada
Não luzes que cegam.
Os holofotes mostram apenas a você
Não queira me contaminar com uma fresta de luz
Desejo-lhe não a luz, mas o sangue que permanece em mim.
Se um dia você o merecer e não o negar.
Spleen e Ideal - Charles Baudelaire
LII - O belo navio
Eu quero te contar, ó mole encantadora!
As belezas que em tua juventude afloram;
Quero pintar tua beldade,
Feita de infância como de maturidade.
Quando varres o ar com teu vestido largo,
Tens o efeito de um barco que se põe ao largo,
Levando estofos, vai ao vento
Seguindo um ritmo suave, e preguiçoso, e lento.
Em teu colo redondo, em tuas espáduas grassas,
Tua cabeça expõe-se com estranhas graças;
Com jeito plácido e triunfante
Vais teu caminho, majestosa infante.
Eu quero te contar, ó mole encantadora!
As belezas que em tua juventude afloram;
Quero pintar tua beldade,
Feita de infância como de maturidade.
O teu colo que avança e que empurra o tecido,
O teu colo triunfante é um armário bonito
Cujos flancos arqueados, claros
Como escudos que aos raios servem de anteparos;
Escudos provocantes, com pontas rosadas!
Armário de segredos, com coisas prezadas,
Com vinhos, perfumes, poções
De fazer delirar crânios e corações!
Quando varres o ar com teu vestido largo,
Tens o efeito de um barco que se põe ao largo,
Levando estofos, vai ao vento
Seguindo um ritmo suave, e preguiçoso, e lento.
Tuas nobres pernas sob as pregas aparecem
E atormentam desejos obscuros que aquecem.
Como duas bruxas que acaso
Girar um filtro¹ negro num profundo vaso.
Teus braços que zombavam dos hércules² precoces,
São das boas luzentes êmulos ferozes,
Com jeito plácidos e triunfante
Segues o teu caminho, majestosa infante.
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
¹Filtro (do grego, phíltron) na acepção de poção mágica para despertar o amor de quem a bebe. (N. do E.)
²Hércules precoces: alusão ao episódio da mitologia grega em que Hércules, ainda no berço, estrangulou as serpentes enviadas por Hera, a ciumenta esposa de Zeus. (N. do E.)
Eu quero te contar, ó mole encantadora!
As belezas que em tua juventude afloram;
Quero pintar tua beldade,
Feita de infância como de maturidade.
Quando varres o ar com teu vestido largo,
Tens o efeito de um barco que se põe ao largo,
Levando estofos, vai ao vento
Seguindo um ritmo suave, e preguiçoso, e lento.
Em teu colo redondo, em tuas espáduas grassas,
Tua cabeça expõe-se com estranhas graças;
Com jeito plácido e triunfante
Vais teu caminho, majestosa infante.
Eu quero te contar, ó mole encantadora!
As belezas que em tua juventude afloram;
Quero pintar tua beldade,
Feita de infância como de maturidade.
O teu colo que avança e que empurra o tecido,
O teu colo triunfante é um armário bonito
Cujos flancos arqueados, claros
Como escudos que aos raios servem de anteparos;
Escudos provocantes, com pontas rosadas!
Armário de segredos, com coisas prezadas,
Com vinhos, perfumes, poções
De fazer delirar crânios e corações!
Quando varres o ar com teu vestido largo,
Tens o efeito de um barco que se põe ao largo,
Levando estofos, vai ao vento
Seguindo um ritmo suave, e preguiçoso, e lento.
Tuas nobres pernas sob as pregas aparecem
E atormentam desejos obscuros que aquecem.
Como duas bruxas que acaso
Girar um filtro¹ negro num profundo vaso.
Teus braços que zombavam dos hércules² precoces,
São das boas luzentes êmulos ferozes,
Com jeito plácidos e triunfante
Segues o teu caminho, majestosa infante.
BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.
¹Filtro (do grego, phíltron) na acepção de poção mágica para despertar o amor de quem a bebe. (N. do E.)
²Hércules precoces: alusão ao episódio da mitologia grega em que Hércules, ainda no berço, estrangulou as serpentes enviadas por Hera, a ciumenta esposa de Zeus. (N. do E.)
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