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sábado, 25 de março de 2017

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LXIII – A assombração

Como os anjos de rude olhar
À tua alcova vou voltar
E junto a ti irei chegando
Pelas sombras da noite entrando;

E te darei, morena amada,
Beijos com a lua gelada,
E mil carinhos de serpente
Em torno de fossa rampante.

Quando a manhã vier brilhar,
Acharás vago o meu lugar,
E até a noite sem calor.

Como outros por meiga atitude,
Sobre a tua vida e juventude,
Quero eu reinar pelo pavor.


BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LXII - Moesta et errabunda¹

Diz-me, Ágata, às vezes teu coração voa
Longe do negro oceano da imunda cidade,
Para um outro oceano que o esplendor povoa,
Azul, claro, Ágata, às vezes teu coração voa?

O mar, o vasto mar, nos consola os labores!
Que demônio dotou o mar de rouco canto
A que acompanha o órgão do vento em rancores,
Dessa função alta e sublime de acalanto?
O mar, o vasto mar, nos consola os labores!

Carrega-me, vagão! Sequestra-me, fragata!
Longe! Longe! Aqui a lama é feita de clamores!
- É verdade que, às vezes, teu coração de Ágata
Diz: Longe dos crimes, remorsos e dores,
Carrega-me, vagão! Sequestra-me, fragata?

Tão longe como estais, ó éden perfumado,
Onde sob claro azul tudo é amor e alegria,
Onde tudo o que se ama é justo ser amado,
Onde em pura volúpia a alma se inebria!
Tão longe como estais, ó éden perfumado!

Mas aquele éden verde das paixões meninas,
As corridas, canções, beijos e ramalhetes,
Os violinos vibrando por trás das colinas,
Com canecas de vinho, à noite nos bosquetes,
- Mas aquele éden verde das paixões meninas,

O éden inocente, em seus furtivos gozos,
Está já mais lonjínquo que a Índia ou a China?
Talvez possa chamá-lo com gritos chorosos,
E animá-lo de novo com voz argentina,
O éden inocente, em seus furtivos gozos?

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LXI - A uma dama crioula

Nas terras perfumadas, do sol às carícias,
Conheci, sob o pálido de árvores douradas
E palmas de onde chove nos olhos preguiça,
Uma dama crioula em graças ignoradas.

Pálida e quente a tez, a bruna encantadora
No colo possui ares nobres, maneirados;
Alta e esbelta, ao andar como uma caçadora,
Seu sorriso é tranquilo e os olhos sossegados.

Se fôsseis, minha Dama, a essa terra de glória,
Pelas margens do Sena ou pelo verde Loire,
Bela digna de antigos palácios ornas,

Faríeis, ao abrigo de sombras secretas,
Brotar sonetos mil no coração dos poetas,
Que os vossos olhos iam logo escravizar.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LX - Franciscae meae laudes
(Louvores a minha Francisca)

Novis te catabo chordis,                             Cantar-te-ei em novas cordas,
O novelletum quod ludis                            Ó minha cabrita que brincas
In solitudine cordis.                                    Na solidão de meu coração.


Esto serdis implicata,                                  Está enfeitada de guirlandas,
O femina delicata,                                       Ó mulher tão deliciosa,
Per quam solvuntur peccata!                       Pra quem são os pecados remidos!


Sicut beneficum Lethe,                               Como de um benfazejo Letes,
Hauriam oscula de te,                                  Colherei beijos de ti,
Quӕ imbuta es magnete.                             Que estás impregnada de ímã.


Quum vitiorum tempestas                           Quando a borrasca dos vícios
Turbabat omnes semitas,                             Perturbava as rotas todas,
Apparuisti, Deitas,                                       Tu me apareceste, Deidade,


Velut Stella salutaris                                    Como estrela salutar
In naufragiis amaris...                                  Nos naufrágios mais amargos...
Suspendam cor tuis aris!                             - Erguerei meu coração em teus altares!


Piscina plena virtutis,                                   Piscina cheia de virtudes,
Fons ӕternӕ juventutis,                                Eterna fonte de juventude,
Labris vocem redde muitis!                          Devolve a voz a meus lábios mudos


Quod erat spurcum, cremasti;                       O que era vil, tu queimaste;
Quod rudius, exӕquasti;                                Rude, tu aplanaste;
Quod debile, confirmasti.                              Débil, tu afirmaste.


In fame mea taberna,                                     Na minha fome meu albergue,
In nocte mea lucerna,                                    Na minha noite minha lâmpada,
Recte me semper guberna.                            Guia-me sempre como é preciso.


Adde nunc vires viribus,                               Acresce agora forças às minhas forças,
Dulce balneum suavibus                               Doce banho perfumado
Unguentatum odoribus!                                De doces odores!


Meos circas lumbos mica,                             Brilha em torno de meus rins,
O castitatis lorica,                                          Ó cinto de castidade,
Aqua tincta seraphica;                                   Banhado em água seráfica;


Patera gemmis corusca                                  Taça brilhante de pedrarias
Panis salsus, mollis esca,                     Pão temperado em sal, delicada iguaria,
Divinum vinum, Francisca!                           Vinho divino, Francisca.

[Tradução (semântica) da tradução francesa de J. Mouquet]

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire

LIX - Sisina¹

Imaginai Diana² em equipagem galante,
Percorrendo as florestas, batendo os balseiros,
Cabelo e colo ao vento, ébria de som gritante,
Soberba em desafios ao forte cavaleiros!

Vistes Théroigne³, amante da coragem,
Excitando ao assalto esse povo descalço,
De rosto e olhar de fogo, criando a personagem,
Galgando, espada à mão, escadas do palácio?

Assim como Sisina! Guerreira ladina,
De alma caridosa e também assassina;
Sua coragem voraz de pólvora e tambores,

Diante de suplicantes sabe baixar armas,
E o coração, talado pelas chamas e horrores,
Tem, para quem é digno, reserva de lágrimas.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹Sisina: alusão à atriz Elisa Neri. (N. do E.)
²Diana: deusa da caça na mitologia romana, filha de Júpiter e Latona. (N. do E.)
³Anne-Josèphe Théroigne de Méricourt (1762-1817) é uma heroína da Revolução Francesa. Participou da Tomada da Bastilha e liderou a marcha que foi ao palácio de Versalhes a fim de trazer Luís XVI e sua família para julgamento em Paris pelo tribunal revolucionário. (N. do E.)

domingo, 12 de março de 2017

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LVIII - Canção da tarde

Embora os cílios maldosos
Te deem esse jeito estranho
Que não é o de um anjo,
Bruxa de olhos carinhos,

Minha frívola, eu adoro-te,
Minha terrível paixão!
Com toda essa devoção,
Por seu deus, do sacerdote.

O deserto e o bosquedo
Perfumam-te as tranças rudes,
Tem tua cabeça atitudes
Do enigma e do segredo.

Tua carne é sempre cheirosa
Qual do turíbulo o entorno;
Encantas como um sol morno,
Ninfa quente e tenebrosa.

Ah! mesmo os filtros mais fortes
Não valem tua preguiça,
E conheces a carícia
Que faz reviver os mortos!

Tuas ancas são amorosas
De tuas costas e teus seios,
E encantas os travesseiros
Com tuas poses langorosas.

Às vezes, para acalmar
Tua raiva misteriosa,
Prodigalizas, bondosa,
O morder e o beijar;

Me rasgas, minha morena,
Com teu riso zombeteiro,
E pões em mim teu brejeiro
Olhar da lua serena.

Sob sapatos de cetim,
Sob teus pés de seda fina,
Ponho o que há de alegre em mim,
O meu gênio e a minha sina,

Minha alma por ti curada,
Por ti, toda luz e cor,
Grande explosão de calor
Nesta Sibéria gelada!

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

sábado, 11 de março de 2017

Spleen e Ideal - Charles Baudelaire.

LVII - A uma Madona

Ex-voto¹ ao gosto espanhol

Ó Madona, ó senhora, um altar vou erguer
Subterrâneo no fundo da minha desgraça,
E vou cavar num canto mais negro em meu ser,
Longe do anseio laico e do olhar de chalaça
Capela, azul e ouro toda marchetada,
Onde tu te erguerás, Estátua deslumbrada;
Com meus Versos polidos, de puro metal,
Sabiamente cravado em rimas de cristal,
Farei pra tua cabeça um enorme Diadema
E pelo meu ciúme, ó Madona suprema,
Mandarei te fazer um Manto, de maneira
Bárbara, dura e espessa, à prova de suspeita,
Que, como uma guarita, encerrar-te-á os encantos;
Não bordado de Pérolas, mas dos meus Prantos!
Teu Vestido será meu Desejo, a tremer,
Ondulante, o Desejo a subir e a descer,
Nas pontas se projeta, nos vales repousa,
E reveste de um beijo o corpo branco e rosa.
Far-te-ei do respeito os mais belos Calçados
De cetim pra teus pés divinos humilhados,
Que, os aprisionando num suave abraço,
Como um molde fiel guardarão o teu traço.
Se não puder, malgrado a arte dedicada,
Talhar para Escabelo uma Lua prateada,
Eu porei a Serpente a morder-me as entranhas
Sob os teus pés a fim que pises suas manhas,
Rainha vencedora e fecunda em reparos,
O monstro todo inchado de ódio e de escarros.
Verás os meus Pensares, Círios alinhados,
Ó Rainha das Virgens, no altar enfeitado,
De brilhos estrelando o teto azul pintado,
Olhar-te sempre com olhar afogueado;

E como tudo em mim te quer muito e te admira,
Tudo é Benjoim, e Incenso, o Olíbano, e Mirra,
E sempre rumo a ti, crista branca e alterosa,
Em Vapor subirá, minha alma tempestuosa.

Enfim, pra completar teu papel de Maria,
E pra mostrar que amor com barbárie se alia,
Volúpia negra! dos Pecados capitais,
Com remorsos algoz, farei sete Punhais
Bem afiados e, malabar insensível,
Tornando o mais profundo amor meta atingível,
Plantá-los-ei no teu Coração vacilante,
Coração soluçante, Coração jorrante.

BAUDELAIRE, Charles. Flores do Mal. Tradução de Mario Laranjeira. 2ª Reimpressão. Editora Martin Claret. São Paulo, 2014.

¹Ex-voto: peça de cera ou outro material, quadro, inscrição, etc., que os fiéis põem na igreja, a fim de agradecer uma graça recebida. (N. do E.)